A religião verdadeira em face dos farisaísmos contemporâneos

 A religião verdadeira em face dos farisaísmos contemporâneos


Pedro Virgínio P .Neto

Tornou-se, nos dias atuais, quase um clichê o discurso contra a religião ou contra o “ser religioso” por parte de pregadores religiosos, que atuam na religião e vivem dela. Entendemos claramente que a mensagem é, ou deveria ser, contra o formalismo religioso desprovido de uma verdadeira piedade ou espiritualidade. 

Contudo, o que normalmente se apreende dessas mensagens é a ideia de que o abandono das formas religiosas resulta, quase que automaticamente, numa espiritualidade mais genuína. Que onde se mantém algum tipo de rito, rotina ou tradição religiosa, alí estão os fariseus e hipócritas. O despojamento de toda formalidade, rito, tradição ou reverência daria lugar à expressão mais genuína da espiritualidade cristã. 

Assim, o Templo é trocado pela garagem. O púlpito é trocado pelo galão de óleo. O “boa noite”, a “graça e paz” e a “paz do Senhor”, são trocados pelo “E aí galera!”. “Uhúúúúú!”. Dentre outras expressões irreverentes (palavras bem quista nos meios midiáticos) usadas por famosos pregadores. 

O terno (que não costumo usar, mas não abomino) e as vestes sociais, são trocadas pelo moletom e a calça rasgada. A Bíblia é trocada pela projeção no mega telão. O “amém” e o “Glória a Deus!”, pelo aplauso fácil. E aqui não estou a repelir cada uma dessas manifestações ou estéticas por si mesmas. Senão pelo fato de elas terem sido associadas a um conjunto ideológico. Uso o termo ideológico para designar não apenas um conjunto de ideias. Mas um conjunto de ideias que não conscientiza de fato. Antes se apresentam como um verniz superficial que ocultam camadas mais profundas. 

No fundo parece que estamos diante de um novo tipo de “Farisaísmo”. Um farisaísmo às avessas. Pois ele também procura transmitir uma suposta espiritualidade superior pela apresentação da forma, sem um apego profundo aos valores e a moral do cristianismo bíblico e neo-testamentário. Aliás, moralidade é outra ideia mal afamada, apresentada como moralismo.

Este novo tipo de farisaísmo é um formalismo com linguagem adequada ao mundo pós-moderno e líquido. Mas ainda assim é um formalismo.

A verdadeira religião ainda é aquela dos “preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade” (Mt 23:23). Mas, no próprio contexto, Cristo não repele todas as práticas religiosas. Elas são válidas, desde que a serviço do mais importante. 

Ao denunciar e advertir contra os falsos mestres, que mantinham a estética e um discurso marcado pelo formalismo próprio do seu tempo, Jesus nos diz que sua verdadeira natureza seria conhecida pelos seus frutos (Mt 7:16). 

No fundo, negar as formas completamente é impossível pelo simples fato de que não vivemos numa realidade de puras essências. As formas, sejam elas adequadas ou não à linguagem e expectativas do mundo pós-moderno, por si mesmas não revelam a verdade íntima de ninguém. Nicodemos era um fariseu sincero. Judas, de grande preocupação pelos pobres, discípulo do mestre que curava no sábado e comia com publicanos e pecadores, entregou o mestre para ser crucificado. 

Ademais, damos muita ênfase aos fariseus como tipologia para uma falsa religiosidade dos tempos atuais e nos esquecemos que nos dias de Jesus também estavam lá, em contraste com o mestre, os Saduceus, os Herodianos e os Zelotes. Dentre outros. Cada um destes pode servir-nos como tipos ideias para analisar o quadro religioso atual. 

Na Bíblia o termo “religião” não aparece como termo eminentemente negativo. Mas como sinônimo de adorador, piedoso, dedicado, praticante, que segura com firmeza, que treme diante de Deus, que exterioriza a adoração e outras  ideias semelhantes. 

Tiago 1: 26 e 27 enfatiza que a exteriorização dessa adoração a Deus precisa ser acompanhada de um verdadeiro caráter justo, na palavra e no trato. Do contrário, essa religião (Prática, externalização da adoração) será vã. Evitar pecar com as palavras, socorrer os que necessitam e manter-se incontaminado das injustiças do mundo. 



Textos bíblicos


At 2: 5 - (ευλαβης) Eulabes: piedoso, cuidadoso, dedicado, segurar firmemente. 

At 13:43 - (σεβομαι) sebomai: Referenciar, adorar (adorador), praticantes 

At 13:50 - (σεβομαι) sebomai: Referenciar, adorar (adorador), praticantes

At 17:4 - (σεβομαι) sebomai: Referenciar, adorar (adorador), praticantes

At 17:17 - (σεβομαι) sebomai: Referenciar, adorar (adorador), praticantes

At 26: 5 - (θρησκεια) threskeia: adoração, referente a cerimônias externas. relacionado com  (θρησκος) threskos: Trêmulo, temor, que teme ou adora a Deus. 

Tg 1: 26 - (θρησκεια) threskeia: adoração, referente a cerimônias externas. relacionado com  (θρησκος) threskos: Trêmulo, temor, que teme ou adora a Deus. Que exterioriza a doração. 

Tg 1: 27 - (θρησκεια) threskeia: adoração, referente a cerimônias externas. relacionado com  (θρησκος) threskos: Trêmulo, temor, que teme ou adora a Deus. Que exterioriza a adoração. 




Fontes dos verbetes gregos


  1. https://search.nepebrasil.org/interlinear/?livro=44&chapter=2&verse=5#strongG2126 

  2.  https://search.nepebrasil.org/interlinear/?livro=44&chapter=13&verse=43#strongG4576 

  3. https://search.nepebrasil.org/interlinear/?livro=44&chapter=13&verse=50#strongG4576 

  4. https://search.nepebrasil.org/interlinear/?livro=44&chapter=26&verse=5#strongG2356 

  5. https://search.nepebrasil.org/strongs/?id=G2357 

  6. https://search.nepebrasil.org/interlinear/?livro=59&chapter=1&verse=26 

https://search.nepebrasil.org/interlinear/?livro=59&chapter=1&verse=27#strongG2356




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